Continuando sua caminhada pela
estrada, de cabeça baixa, sentindo as dores do fim de seu dia, acabando a
jornada de trabalho após carregar quilos e quilos de pedra morro a cima, toca o
sinal da fábrica e o Jumento pode por 15 minutos recostar se em uma árvore para
descansar.
Solta o saco de pedras no chão, acende um cigarro, e
pensa empolgado com a manifestação que irá participar, domingo na avenida
Paulista.
Aproxima se o segurança da fábrica para puxar
assunto, não está em sua pausa para o café, mas um pouco de conversa ainda pode
puxar, desde que os donos não estejam vendo.
-Au, au, boa tarde Patrão.
-Deixa disso cachorro, não sou seu patrão – Disse o
Jumento.
-Sempre as ordens. Dia cansativo?
-Como sempre.
-Mas já está acabando, se anime – retruca o segurança
cão.
-Acaba não, amanhã tem mais. O que me anima é poder
tirar essa presidAnta do governo e poder colocar meu país de volta nos trilhos.
- Ah, vai na manifestação?
- Vou sim, o congresso vai votar uma mudança na
constituição, é o único jeito de mudar o Brasil.
- E será que muda? Entra e sai governo continua a
mesma coisa.
-Muda sim, mudando a constituição, vamos tirar a Anta
e acabar com a corrupção.
-Mas quem assume não é o vice, o Porco? Ouvi dizer
que agora andam somente nas patas traseiras.
-Eu acho que é. Se pudesse andaria só nas patas
traseiras também. Vamos com a gente? O Cavalo ta pensando em ir comigo.
O sinal da fábrica toca novamente e o Jumento joga o
cigarro que ainda não terminou no chão, e torna a subir o morro com o saco de
pedras nas costas.
Fim do dia, no metrô de volta pra casa o Jumento
encontra se com a Galinha.
- Boa noite dona Galinha.
-Bo, bo, boa noite.
-Como anda a produção de ovos?
-Cada dia mais fraca, e a cada dia meus ovos valem
menos, e as contas sobem mais.
- Mas isso é culpa da Anta.
-A presidente?
-Sim.
-É paca,
não é Anta.
- Que seja,
mas não gosto dela.
- E tem que
gostar? Ela não é um personagem do Big Brother, ou da novela. Está lá a
trabalho, está trabalhando, ou vai dizer que você é no seu trabalho, como é em
casa com os amigos?
-Claro que não – protesta o Jumento –Quem é que é.
Mas torço logo pra ela sair, entrar o Porco e derrubarmos ele também, FORA
CORRUPTOS!!!
- E quem vai tirar o Porco? Se ele se aliou aos
Lobos, e tem a maioria do congresso, não tem voto suficiente pra tirar ele.
- Ah Dona Galinha, me desculpe, mas a gente dá um
jeito.
- E acredita nessa mudança do texto da constituição?
E vão gritar para todos ouvirem: Fora Anta, Fora Porco, Fora Lobo?
- Não sei o que vão gritar, sei que acredito na
constituição e que está escrito:
Todos somos iguais perante a lei.
- Boa sorte então, domingo.
-Obrigado.
E no domingo, em uma sessão
extraordinária todo o congresso dos bichos se reúne, pois são um exemplo a
serem seguidos, e estão trabalhando para o melhor do bem comum, e do futuro da
nação.
Muita discussão, falatório, a
Águia após seu discurso foi ovacionada até pela Minhoca. A Cobra quando votou,
não segurou sua língua, e atingiu a coitada da ovelha com um pouco de veneno. A
Doninha se colocou como exemplo a ser seguido, votou e correu para o armário se
esconder. Os Porcos votaram juntos, e ganharam um uivo bem forte da bancada dos
Lobos. O Sr. Bode estava sozinho, demorou a chegar no microfone e enquanto
falava seu discurso, cuspia em todos na sua frente. O macaco chegou com um
cacho novo de bananas, importadas do Caribe. O cachorro perdeu sua hora de
votar, porque ficou correndo atrás da Gata, que terminou o dia pendurada no
lustre. A Ema acabou comendo o microfone, pela empolgação do momento, sorte que
a Girafa, que é médica estava com sua maleta e estetoscópio e pode puxar de
volta o microfone para encerrar a votação, quem não gostou foi a Foca, que teve
que secar o microfone babado.
Fim de sessão todos muito animados com o novo texto
da constituição e o futuro do país.
Todos somos iguais, mas alguns são mais iguais que
outros.
Na Paulista o Jumento e seus
amigos terminam o dia felizes e cantando.
- Auau au, Iaia ó, miau miau
miau, cocoró có.
O Animal é tão bacana, mas
também não é nenhum banana.
- Auau au, Iaia ó, miau miau
miau, cocoró có.
Quando a porca torce o rabo,
pode ser o diabo, olha vejam só.
-Auauau, cocoró có.
-Era uma vez
-É ainda
-Certo país
-É ainda
- Onde os animais eram
tratados como bestas.
-São ainda, são ainda.


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