quarta-feira, 27 de abril de 2016

Congresso dos Bichos




Continuando sua caminhada pela estrada, de cabeça baixa, sentindo as dores do fim de seu dia, acabando a jornada de trabalho após carregar quilos e quilos de pedra morro a cima, toca o sinal da fábrica e o Jumento pode por 15 minutos recostar se em uma árvore para descansar.
                Solta o saco de pedras no chão, acende um cigarro, e pensa empolgado com a manifestação que irá participar, domingo na avenida Paulista.
                Aproxima se o segurança da fábrica para puxar assunto, não está em sua pausa para o café, mas um pouco de conversa ainda pode puxar, desde que os donos não estejam vendo.
                -Au, au, boa tarde Patrão.
                -Deixa disso cachorro, não sou seu patrão – Disse o Jumento.
                -Sempre as ordens. Dia cansativo?
                -Como sempre.
                -Mas já está acabando, se anime – retruca o segurança cão.
                -Acaba não, amanhã tem mais. O que me anima é poder tirar essa presidAnta do governo e poder colocar meu país de volta nos trilhos.
                - Ah, vai na manifestação?
                - Vou sim, o congresso vai votar uma mudança na constituição, é o único jeito de mudar o Brasil.
                - E será que muda? Entra e sai governo continua a mesma coisa.
                -Muda sim, mudando a constituição, vamos tirar a Anta e acabar com a corrupção.
                -Mas quem assume não é o vice, o Porco? Ouvi dizer que agora andam somente nas patas traseiras.
                -Eu acho que é. Se pudesse andaria só nas patas traseiras também. Vamos com a gente? O Cavalo ta pensando em ir comigo.
                O sinal da fábrica toca novamente e o Jumento joga o cigarro que ainda não terminou no chão, e torna a subir o morro com o saco de pedras nas costas.
                Fim do dia, no metrô de volta pra casa o Jumento encontra se com a Galinha.
                - Boa noite dona Galinha.
                -Bo, bo, boa noite.
                -Como anda a produção de ovos?
                -Cada dia mais fraca, e a cada dia meus ovos valem menos, e as contas sobem mais.
                - Mas isso é culpa da Anta.
                -A presidente?
                -Sim.
-É paca, não é Anta.
- Que seja, mas não gosto dela.
- E tem que gostar? Ela não é um personagem do Big Brother, ou da novela. Está lá a trabalho, está trabalhando, ou vai dizer que você é no seu trabalho, como é em casa com os amigos?
                -Claro que não – protesta o Jumento –Quem é que é. Mas torço logo pra ela sair, entrar o Porco e derrubarmos ele também, FORA CORRUPTOS!!!
                - E quem vai tirar o Porco? Se ele se aliou aos Lobos, e tem a maioria do congresso, não tem voto suficiente pra tirar ele.
                - Ah Dona Galinha, me desculpe, mas a gente dá um jeito.
                - E acredita nessa mudança do texto da constituição? E vão gritar para todos ouvirem: Fora Anta, Fora Porco, Fora Lobo?
                - Não sei o que vão gritar, sei que acredito na constituição e que está escrito:

Todos somos iguais perante a lei.

            - Boa sorte então, domingo.
                -Obrigado.

E no domingo, em uma sessão extraordinária todo o congresso dos bichos se reúne, pois são um exemplo a serem seguidos, e estão trabalhando para o melhor do bem comum, e do futuro da nação.
Muita discussão, falatório, a Águia após seu discurso foi ovacionada até pela Minhoca. A Cobra quando votou, não segurou sua língua, e atingiu a coitada da ovelha com um pouco de veneno. A Doninha se colocou como exemplo a ser seguido, votou e correu para o armário se esconder. Os Porcos votaram juntos, e ganharam um uivo bem forte da bancada dos Lobos. O Sr. Bode estava sozinho, demorou a chegar no microfone e enquanto falava seu discurso, cuspia em todos na sua frente. O macaco chegou com um cacho novo de bananas, importadas do Caribe. O cachorro perdeu sua hora de votar, porque ficou correndo atrás da Gata, que terminou o dia pendurada no lustre. A Ema acabou comendo o microfone, pela empolgação do momento, sorte que a Girafa, que é médica estava com sua maleta e estetoscópio e pode puxar de volta o microfone para encerrar a votação, quem não gostou foi a Foca, que teve que secar o microfone babado.
                Fim de sessão todos muito animados com o novo texto da constituição e o futuro do país.

Todos somos iguais, mas alguns são mais iguais que outros.


Na Paulista o Jumento e seus amigos terminam o dia felizes e cantando.
- Auau au, Iaia ó, miau miau miau, cocoró có.
O Animal é tão bacana, mas também não é nenhum banana.
- Auau au, Iaia ó, miau miau miau, cocoró có.
Quando a porca torce o rabo, pode ser o diabo, olha vejam só.
-Auauau, cocoró có.
-Era uma vez
-É ainda
-Certo país
-É ainda
- Onde os animais eram tratados como bestas.

-São ainda, são ainda.


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